O Último Natal
Alessia amava o Natal.
Naquela noite, porém,
não pediu nada ao Papai Noel.
Talvez tenha confundido
o fim de dezembro
com o fim de tudo.
Na rádio, Last Christmas.
Nas janelas, luzes.
Nas casas, famílias.
E em algum apartamento,
uma menina cansada
de esperar pela própria vida.
O destino, esse sujeito inconveniente,
levou-a por um caminho
onde um velho gritava mais que o mundo,
um espelho não sabia quem era,
uma rena não parava quieta
e uma salamandra tinha
mais atrevimento que juízo.
Baltazar chamou aquilo de provação.
Narciso, de autoconhecimento.
O Papai Noel, de julgamento.
Alessia, coitada,
só queria entender
em que momento viver
havia se tornado tão difícil.
Encontrou o pai.
Encontrou a mãe.
Encontrou centenas de mulheres
que poderia ter sido.
E descobriu, entre tantos reflexos,
que nenhuma vida era perfeita
o bastante para não doer.
Talvez o amanhã não seja uma promessa.
Talvez seja apenas uma porta
que ainda não tivemos coragem de abrir.
Alessia amava o Natal.
E o que mais me dói
não é pensar que aquele
poderia ter sido o seu último.
É pensar em quantos Natais
ela passou esperando um milagre,
sem imaginar que, naquela história,
o milagre também poderia ser
ter mais um
Com carinho, Alessia Sinclair.


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